"Nos outros planetas, quase todos
são pessoas que cabem na tela às centenas, só que muitas vezes uma fica toda
grandona e próxima. Elas têm roupas em vez de pele, rosto cor-de-rosa ou
amarelo ou marrom ou irregular ou cabeludo, com a boca muito vermelha e olhos
grandes, pretos em volta. Elas riem e gritam muito. Eu ia adorar ver televisão
o tempo todo, mas ela estraga o cérebro da gente. Antes de eu descer do Céu, a
Mãe deixava a TV ligada o dia inteiro e virou um zumbi, que é igual um fantasma
só que anda, tum, tum tum. Por isso,
agora ela sempre desliga depois de um programa, e aí as células se multiplicam
de novo de dia e podemos ver outro programa depois do jantar e fazer crescer
mais cérebro durante o sono.
- Só mais um, porque é meu
aniversário! Por Favor!
A Mãe abriu a boca, depois
fechou. Aí disse:
- Por que não? – Pôs os
comerciais sem som, porque eles fazem purê do cérebro ainda mais depressa e ele
escorre pelos ouvidos.
[...]
Estou aprendendo uma porção de
bons modos. Quando uma coisa tem um gosto nojento, a gente diz que é
interessante, que nem arroz selvagem, que é duro como se não estivesse cozido.
Quando assoo o nariz, eu dobro o lenço pra ninguém ver o muco, é segredo.
Quando eu quero que a Mãe me escute e não outra pessoa, eu digo “Com licença”,
às vezes digo “Com licença, com licença” durante séculos, e aí quando ela
pergunta o que é eu não lembro mais."
DONOGHUE, Emma. Quarto.
2011.
Nunca pensei que fosse possível chorar (e vomitar) tanto arco-íris pra um livro, é muita lindeza.

Gostei do trecho que tu postou, não conheço esse livro.
ResponderExcluireba, tava com saudade!
ResponderExcluire achei bem interessante o trecho que postou
"Pôs os comerciais sem som, porque eles fazem purê do cérebro ainda mais depressa e ele escorre pelos ouvidos."
UHAUHAUHAUH,uma palavra: UAU.
Ah! Eu ouvi falar desse livro há alguns anos... É aquele que se refere a todos os objetos como gente mesmo? Sempre tive curiosidade de ler. Que saudades daqui, desculpe meu desleixo ):
ResponderExcluir